Primeiro domingo do mês e estamos de volta com as neuroses do viajante planejador…

O post anterior acabou ficando longo (quem disse que neurose tem limite?) e tivemos que dividir em dois.

Para relembrar, a listinha das possibilidades das mortes que poderíamos encontrar caso viajássemos para a Islândia está logo abaixo. Hoje retomamos a partir do ponto 6! Pra quem perdeu, não deixe de ler a primeira parte em “E se a gente fosse… para a Islândia?

  1. Afogado ou congelado na praia de Reynisfjara ou na praia de Kirkjufjara
  2. Afogado ou congelado tentando ajudar quem se afogou na situação citada acima
  3. Congelado ou de concussão nas geleiras do lagos glaciares
  4. Congelado porque ficou perdido em geleiras
  5. Soterrado em cavernas de geleira
  6. Soterrado nas cavernas basálticas
  7. Queimado nas fontes geotérmicas
  8. Atropelado na estradas porque parou para ver a aurora boreal
  9. Congelado porque fez pouco caso do clima da Islândia
  10. Acidentado porque caiu de algum rio ou queda d’água

Prontos para a parte final? Então vamos a ela!

6. Soterrado nas cavernas basálticas

Feitas de pedra, qual a probabilidade disso cair, né?

Islândia não está na moda (como eu canso de ouvir quando digo que quero visitar o país)?

Com certeza as autoridades do país já verificaram a segurança destes pontos turísticos, e se não tem nenhuma restrição de entrada é porque é super seguro e podemos entrar e sair à vontade, né?

ERRADO!

A Islândia tem aproximadamente 323 mil habitantes. (Amigo, essa é a população em 2010 da subprefeitura de Santana na cidade de São Paulo, que engloba apenas TRÊS bairros: Mandaqui, Santana e Tucuruvi, só pra você ter uma ideia!)

Eles receberam cerca de 1,3 milhão de turistas em 2015. Imagine que, para cada habitante, eles receberam quase 4 turistas. Em 2016, foram 1,7 milhão (40,1% de crescimento), e estão prevendo 2 milhões para 2017, ou seja, quase 7 turistas por islandês. Para efeito comparativo, no Brasil recebemos 6,3 milhões de turistas em 2015 e 6,6 milhões de turistas em 2016 (com Olimpíadas, hein gente?). Crescimento recorde de 4,8% para o país.

Vejam que diferença: para o mesmo ano de 2016 tivemos 5,2 turistas por islandês e 0,03 turista por brasileiro. E aqui já acontecem as coisas que acontecem…

E você realmente acha que na Islândia tiveram tempo, disposição e capacidade para checar tudo, testar tudo e prever todo tipo de estupidez humana?

As cavernas basálticas são formadas pelo resfriamento de lava vulcânica. Como já sabemos, a Islândia é um prato cheio para quem busca vulcões e tudo que é decorrente de suas atividades: gêiseres, formações rochosas derivadas de atividade vulcânica e até cavernas e tubos formados pela passagem de lava e seu consequente resfriamento.

caverna basaltica.jpg
Caverna basáltica na praia de Reynisfjara (foto da Segatours)

Não é novidade que haja desmoronamento dessas formações, pois variação de temperatura, desgaste natural ou pressão podem fazer com que essas estruturas desabem. Tanto não é novidade que muitas cavernas são descobertas após o desabamento de parte dessas estruturas, como foi o caso do descobrimento desta caverna na Islândia. O teto da caverna desabou, e foi possível acessar a caverna até então desconhecida pelo homem.

Isso é um exagero? Talvez. Não encontrei pessoas que estivessem dentro da caverna na hora exata do desabamento, mas há um relato de desabamento na caverna de Reynisfjara (lembra da nossa praia com ondas assassinas? Se não lembra, volte ao nosso post do mês passado) em novembro de 2013. A caverna é bastante frequentada por turistas e locais até para casamentos. Como só achei uma fonte que falasse sobre esse desabamento de 2013 (e a página saiu do ar enquanto escrevíamos), e as pessoas parecem frequentar bastante a caverna, fica difícil dizer em quem acreditar: se na descoberta das cavernas pelo desabamento dos tetos (mesma formação rochosa de basalto) ou na confiança das pessoas que fazem até cerimônias dentro dessas cavernas…

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Colunas de basalto que desmoronaram com a ação da infiltração de água no Parque Nacional de Jokulsargljufur – Islândia

Foto retirada do site: Dave Showalter – Nature photography

7. Queimado nas fontes geotérmicas

Na terra do gelo e fogo, você não vai deixar de conhecer essas maravilhas da natureza, não é mesmo? O mais famoso da Islândia, o grande Geysir (e que deu origem ao nome “gêiser”) pode expelir água fervente a até 70 metros de altura – e dada a natureza deste fenômeno, te parece improvável que alguém chegaria próximo o suficiente para arriscar a vida, não é mesmo?

Pois turistas são seres de outros planeta e não fazem parte da raça humana. Fazemos coisas inacreditáveis e podemos sim fazer o improvável. Aliás, Ed Sheeran está aí para provar que mesmo pessoas talentosas continuam sendo seres humanos e fazem o improvável. Ele descreve exatamente o que ele fez na Islândia próximo a uma fonte de água quente (ver a partir de 2:37):

Ed foi alertado pelo guia a não prosseguir, mas resolveu olhar… até que escorregou e um pouco da água quente caiu em seu pé. (Ele estava usando botas Timberland impermeáveis, mas a água entrou por cima da língua da bota.) Ele tirou a bota imediatamente, e recomenda: não tire as meias! Se quiser saber o que aconteceu com o pé do Ed Sheeran leia a notícia ou veja a entrevista até o final…

Isso é um exagero? Não. O senhor desta história não morreu, mas ficou bem machucado ao decidir sair do caminho marcado e explorar a região em volta das fontes geotérmicas. Ele literalmente pisou em cima da fonte por achar que não era tão quente assim e acabou sendo atingido por água a 96 ºC! Foi resgatado de helicóptero com queimaduras no peito, mãos e pernas.

8. Atropelado na estrada porque parou para ver a aurora boreal

Aí você pensa: Aaahh, não é possível que morra gente até vendo aurora boreal, né? Pois acredite. Estamos num país que não conhecemos, onde as pessoas seguem certas regras que parecem óbvias para os habitantes locais… e problemas sérios podem acontecer quando algum turista desavisado age de maneira inesperada e surpreende as pessoas à sua volta.

Outro detalhe: a aurora boreal parece ser algo tão incrível que as pessoas ficam hipnotizadas e tendem a dirigir o carro de forma errática, quase como bêbadas. Foi o caso de dois carros parados pela polícia. Nós já sabemos como dirigir erraticamente pode causar acidentes, então nem preciso dizer o quão perigoso isso pode realmente ser. Em todo caso…

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Belas e fatais: Auroras boreais também podem causar acidentes!

Isso é um exagero? Não. Já houve morte relacionada à aurora boreal. O turista em questão parou no acostamento da estrada para assistir ao espetáculo de luzes e apagou os faróis do carro para aumentar o efeito. Primeiro que não podia parar no acostamento da estrada neste local, pois há uma área específica para isso. Com a luz apagada então… não deu outra. Quando saiu do carro para ver a aurora boreal, foi atropelado e morto por algum motorista não identificado que jamais esperava que houvesse alguém parado na estrada no meio do escuro.

9. Congelado porque fez pouco caso do clima da Islândia

Verão na Islândia! A trilha de Laugavegur percorre 2 a 4 dias de caminhada de uma paisagem belíssima e variada: rio, areia negra, fontes geotérmicas e geleira. Considerada uma das trilhas mais bonitas do país, nada pode dar errado. O lugar comporta até uma ultramaratona em julho. Você pode fazer essa trilha até com agências de turismo. No site você consegue ter uma ideia de quão pacata ela parece ser. Eles até classificam a trilha como moderada! O que poderia dar de errado?

Fotos de Andri Már Thorstensen

Bom, agora vamos ao fator humano e bom senso. É fim de junho, ou seja, início de verão em um país cujas temperaturas não ultrapassam 17 ºC no verão e cuja mínima de inverno pode chegar a -9 ºC. Ainda tem neve, e quando tem tempestade, a coisa costuma ficar feia.

Gráfico de temperaturas históricas de 1979 a 2012:

daily_high_and_low_temperature_temperature_c

Ido Keinan, israelense de 25 anos, resolveu fazer o trecho de Landmannalaugar para Þórsmörk, totalizando 4 dias de caminhada e cerca de 35 km. Era domingo, 27 de junho de 2004. Na quinta anterior à chegada de Ido, o tempo esteve bastante ruim na região. Era começo do verão, mas por causa do péssimo tempo, fecharam a trilha e a mantiveram fechada até aquele domingo em que Ido chegou a Landmannalaugar. Os guardas florestais o alertaram sobre o frio e sobre o fato de suas roupas (de algodão e calçados leves) não serem apropriadas para a trilha que ele pretendia fazer, já que a tempestade dos últimos dias deixara a região coberta de neve.

O tempo ainda estava ruim, e a trilha recém reaberta estava sendo liberada para alguns turistas, apenas após insistentes alertas dos guardas florestais. A distância até o próximo abrigo (Hrafntinnusker) era de 12 km (em linha reta seria algo como 7,5 km). Em condições normais, seria possível cobrir essa distância em 4 ou 5 horas de caminhada… mas estamos na Islândia. E, mesmo assim, Ido decidiu prosseguir com a caminhada.

trajeto-ido
Google maps e nossa autoconfiança: uma fórmula que pode dar errado…

O tempo mudou de ruim para péssimo. O caminho pela região montanhosa se tornou cada vez mais difícil devido ao vento e à neve, e à medida que ele avançava, uma neblina começou a se estabelecer pelo caminho. Em pouco tempo, Ido já não conseguia ver para onde estava indo e nem para onde deveria ir. Andando a esmo e por tanto tempo, exposto a esse clima que ele insistiu em subestimar ao não seguir as orientações dos guardas florestais, Ido percebeu que precisava de ajuda, e logo. Decidiu então ligar para o número de emergência e pedir socorro. Depois disso, ainda ligou para sua irmã em Londres, que, alarmada, avisou toda a família.

A família fez o que pôde: contatou Deus e o mundo para pedir que o socorro chegasse o mais rápido possível. Descobriram que o tempo na região estava péssimo e que a visibilidade era inferior a 1 metro e que, portanto, um helicóptero era inviável… maaasss que a ajuda já havia sido enviada, e que a equipe de resgate da cidade mais próxima já havia mandado 70 pessoas para procurar Ido. Aqui vale um parênteses: a cidade mais próxima que enviou a equipe de resgate, de acordo com a reportagem, é Hella. No mapa, Hella fica a 104 km de Landmannalaugar e, ainda de acordo com o Google Maps, é possível fazer o trajeto de carro em 2 horas. Ou seja, é tempo pra caramba.

Enquanto isso, no abrigo de Hrafntinnusker (ponto roxo no mapa abaixo), a guarda florestal Fanney Gunnarsdóttir era avisada sobre Ido. Eram por volta das 17:30h. Fanney questionou os turistas, e um casal afirmou ter visto uma pessoa com as características de Ido próxima a Bennisteinsalda (5 km de distância em linha reta do abrigo no ponto vermelho do mapa). Ela até chegou a sair para procurá-lo, mas como a tempestade estava terrível, voltou ao abrigo.

Quando os primeiros voluntários chegaram a Landmannalaugar, eles se uniram a Helgi Hjörleifsson, um antigo e experiente guarda da reserva florestal. O grupo conseguiu vasculhar a área de maneira rápida e eficiente, mas com o clima extremamente ruim, mesmo os próprios voluntários quase se perderam. Não encontraram nada.

Bom, se Ido não estava nas proximidades de Landmannalaugar, então ele deveria estar próximo do abrigo de Hrafntinnusker, onde o tempo estava ainda pior. A equipe de resgate chegou ao abrigo próximo da meia-noite mas mal entrou, já saindo de novo em busca de Ido… até voltarem perto de 1h da manhã, com notícias de Keinan.

Ele morreu a 1 km de um abrigo, simplesmente porque subestimou as condições climáticas da Islândia. Você encontra mais detalhes dessa história de 2004 aqui.

Isso é um exagero? Não! Pois não são só turistas que fazem pouco caso do clima da Islândia. Um casal australiano teve o azar de encontrar um guia turístico que colocou em risco a vida do grupo ao prosseguir com o passeio mesmo com o alerta de tempestade. No caso, o casal ainda teve problemas mecânicos com a moto, ficou para trás e enfrentou a tempestade até que o resgate chegasse. Tiveram muita sorte! A história deles está aqui.

Você ainda pode pagar o mico de ter que ser resgatado de uma tempestade… Dez carros com turistas foram resgatados depois que uma tempestade os atingiu. Como estamos falando da Islândia, as tempestades lá são fora de série e os ventos carregam até pedras. Essas pedras atingiram os veículos, que acabaram cheios de neve! Aí só esperar o resgate salvar todo mundo e levá-los para um hotel próximo… Fotos do infortúnio aqui.

10. Congelado ou afogado porque você caiu em um rio 

Já sabemos que se você for pego pelas ondas do mar da Islândia, você pode morrer afogado ou congelado. Cair em lagoas glaciais também não é boa ideia, como vocês viram no ponto 3.

E aí você está num parque nacional com seus filhos e, como pai responsável e ciente dos perigos desse país inóspito, você:

a) alerta seus filhos sobre o perigo de brincar próximo a qualquer água, seja de lagoas glaciares, rios ou mares;

b) fica mais tranquilo com a existência de um rio nas proximidades, pois não se trata de lagoas glaciares ou mares revoltos, e por isso relaxa; ou

c) desafia seus filhos numa brincadeira de quem tem coragem de pular na água do rio?

Para quem assinalou a opção “c”, parabéns! Você realmente imagina até onde a estupidez humana pode chegar. O menino pulou na água e quase morreu de hipotermia. A chegada de um guarda impediu que as risadas dos pais prosseguissem (eles realmente não tinham noção do risco que a criança corria). Duvida? Então leia aqui detalhes dessa história absurda. Mas não precisa ser um pai brincalhão para chegarmos na situação acima. Gullfoss, um dos mais famosos pontos turísticos da Islândia, mostra para nós que imprudência tem de sobra. Vejam a quantidade de pessoas se aproximando da borda ou mesmo ultrapassando a barreira estabelecida para chegar mais perto da queda d’água.

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Estão vendo a cerca? Era ali que TODAS as pessoas deveriam estar.

Isso é um exagero? Não, como a gente já viu aí em cima… mas para quem precisa de mais fatos, uma família britânica quase perdeu a vida porque uma das crianças caiu na água, a mãe foi salvá-la, até que por fim tava todo mundo na água: mãe, filho, filha e pai. O homem conseguiu tirar todos da água, e o pior só não aconteceu porque tiveram sorte! Contaram com a ajuda de pessoas que sabiam o que fazer e calhou do organismo do pai ser mais resistente ao frio.

Esse post começou com um café entre amigos, e nessa de começar a pesquisar, a gente vai vendo que imprudência e sorte todo mundo tem!

Outra coisa que não passou despercebida foi a incrível equipe de resgate que é citada em todos os casos. A Islândia possui cerca de 100 equipes de resgate espalhadas por todo o país, totalizando cerca de 4000 VOLUNTÁRIOS. Isso mesmo! São pessoas que têm empregos normais e se voluntariam a resgatar pessoas e animais em situação de perigo. São dois anos de treinamento específico para se tornar membro, além de uma boa grana (do seu próprio bolso) com roupas e calçados adequados para enfrentar as situações que precisam enfrentar. Mais informações sobre esses heróis, você encontra aqui e aqui. Inacreditável, né? Voluntários que se dispõem a abrir mão do seu tempo livre e arriscam suas próprias vidas para socorrer pessoas que muitas vezes se colocam em perigo para ter uma boa selfie ou apenas porque se acham mais espertas do que as outras… Enfim, fica aqui o registro de nosso assombro em relação a eles!

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ICE-SAR: Icelandic Association for Search and Rescue, como essas equipes são conhecidas

Nossos planos de Islândia continuam de pé, mas desta vez com guias turísticos, prudência, cautela e atenção às sinalizações!

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